Crônica de uma saudade anunciada



Caro Paulo Mendes Campos, é verdade, "o amor acaba; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão".

A saudade, porém, saudoso poeta, jamais será dissipada. Resiste feito o viço de um remador diante de uma tormenta.

Como diria o cancioneiro, fica na pele feito tatuagem.

Tio, tu que me embalaste com afinco no lirismo das letras!

Bebi, como um ébrio, na tua pedagogia.

Tu, um bibliotecário de formação, que adotou a tipografia como ofício.

Gutenberguiano, por excelência.

Profissão que honraste, tal como outro imortal, o mítico Edgard Leuenroth.

Tio, tem uma crônica do Marcos Rey que é fantástica! Sempre que a leio lembro do senhor, pois o pai dele também era gráfico e tinha muita coisa em comum com a sua essência.

Pincelei alguns trechos pro senhor. Carece evocá-los agora.

"Muito antes de saber ler eu já vivia num mundo de histórias que meu pai, um gráfico, me contava. Velhos contos das Mil e uma Noites e de famosos livros infantis. Algumas ele próprio tentava inventar, mas não era seu forte. Geralmente fazia a maior confusão ou improvisava finais que nada tinham a ver com o princípio. Sua memória nunca foi grande coisa. Faltou-me dizer que enquanto me contava histórias ia bebendo bons goles de vinho. Gostava de beber principalmente à noitinha, depois do trabalho".

"- A leitura me faz voar.
- Voar?
- Voar. Infelizmente nunca pude viajar além de Campinas, mas nas asas de um livro viajo. Conheci o mundo, virando páginas. É mais cômodo. E não é preciso carregar malas, entendeu?"

"- As histórias e lendas que me contou de alguma forma me ajudaram a passar nos exames, pai. Senti mais chão sob meus pés.
- Acha que vai ser bom aluno?
- Tentarei.
- Mas, conseguindo ou não, faça algo ainda melhor. Ler. Há escritores e poetas que devem ser lidos. Lima Barreto, Drummond. Morrer sem conhecê-los é um vexame - disse após o primeiro gole. - A maioria dos doutores ignora tudo fora da profissão. O conhecimento deles cabe dentro de um pequeno escritório. Desconhecem o homem, desconhecem o mundo... Perdem o que se fez e se faz de melhor no planeta. Não gostaria que fosse um desses. Que tal?"

Gostou?

Maravilhosa, não é? Esse Marcos Rey também faz uma falta danada.

Tem razão, Tio! Nunca tive interesse por epopéias. Sou como o Manoel de Barros, "prezo insetos mais que aviões/Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis/Tenho em mim um atraso de nascença/Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos".

Por isso prefiro a cantilena das ruas. Como no poema do Bandeira, "não quero saber do lirismo que não é libertação".

Idealizo ofícios como o do senhor. No meu mundo o tipógrafo é um artesão das palavras.

Feito um jogador de cartas, sempre a embaralhar e a brincar com as palavras.

Por falar em profissões antigas, Tio, queria eu ter o habilidade de um relojoeiro.

Talvez pudesse parar o tempo e assim estender nossas conversas.

Outra coisa, antes que esqueça: herdei a sua formação.

Hoje sou bibliotecário e vivo catalogando utopias em comunidades de SP.

Tio, chega de delongas, não é verdade?

Desço por aqui mesmo, na Estação da Saudade.

Antes de me despedir, Tio, preciso lhe dizer que fiquei com aquele vinil do Adoniran.

Por falar no disco, -- eu sempre alongando a conversa -- ao contrário do personagem da canção "Iracema", não perdi o seu retrato.

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